AS VOZES DE MINHA MÃE
O tempo não consegue apagar de mim
A lembrança das brincadeiras
Da minha infância
Hoje entrelaçadas às vozes
De minha mãe.
São vozes saudosas
Prolongadas no tempo
A ecoarem em meus ouvidos:
- Meu filho, venha cá!
A ressoarem em meu coração:
- Meu filho, mamãe te ama!
O tempo passa, mas não apaga
A lembrança viva, em mim,
Das brincadeiras de minha infância,
Das veludosas vozes de minha mãe.
(Poema de Francisco Dantas. Instantes Poéticos, 2006, p. 25)
A FAMÍLIA
No outono, tenho sono.
No inverno, eu hiberno.
Na primavera, eis a Vera.
No verão, ouço trovão.
Faço verso, faço rima,
Isto não é condição.
Se quiser ter uma menina,
Só lhe faço uma exigência,
Não a chame de Idalina,
Muito menos de Efigênia.
Dê-lhe o nome Manuela
E terei amor por ela.
Amo a mãe e amo a filha,
Amo o tio e o irmão.
Amo o sogro e a cunhada.
Mas a sogra é uma facada,
É uma carta desnaipada.
Me desculpe, meu irmão,
Eu não vou nessa jogada,
Pois a sogra é um limão.
(Poema de Francisco Dantas, 2009)
TARÔ
E agora?
O medo me invade
Como o escuro
Do quarto
Em que minha avó
Se foi num infarto
Fulminante raio
Da dor que trespassa
Meu peito
Nesse qualquer momento
De indefinição do que seja -
Morte.
E agora? ...
(Poema de Francisco Dantas, abril de 2009)
DRAMA
Meu medo
Não é de morrer,
Mas de perder você
Em meus abraços.
Eis o drama...
(Poema de Francisco Dantas, março de 2009)
EU-MULHER
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
CONCEIÇÃO EVARISTO, poeta afro-brasileira, nasceu em Belo Horizonte/MG em 1946 e reside no Rio de Janeiro desde 1973. Formou-se em Letras pela UFRJ. É Mestra em Literatura Brasileira pela PUC/RJ e doutoranda em Literatura Comparada. É reconhecida, no Brasil e no Exterior, como uma das poetas mais representativas da poesia afro-brasileira.
Poema extraído de Cadernos Negros. Os Melhores Poemas. São Paulo: Quilomhoje, 1998, p.41.
(Francisco Dantas, março de 2009)




BOLERO
Ao pôr-do-sol,
Nuvens vestidas de sombras
Dançam saudades
Ao ritmo de Ravel
Na Praia do Jacaré.
(Imagens e poema de Francisco Dantas, fevereiro de 2009)
MINHAS AMIGAS, MEUS AMIGOS, estamos de volta depois de uns tantos dias de folga, depois das festas de final de ano. 2008, apesar de todos os problemas de saúde, foi um excelente ano, nem que seja pela felicidade de superar problemas aparente ou realmente insuperáveis. Conseguimos juntar material para a publicação de um segundo livro de poemas, que esperamos lançar até o início do próximo ano. 2008 foi um excelente ano também, e sobretudo, pela felicidade da convivência familiar e pela munutenção e aquisição de novas amizades. Para isso, o nosso blog foi importante. Um dos prazeres desse ano foi ver um poema meu em vídeo, no You Tube, na voz da poeta mineira, Eliane Alcântara, vídeo esse atualmente já com mais de 7000 acessos (Ver abaixo**). E, tenho certeza, 2009 promete ser bom, apesar do governo, apesar dos políticos, apesar das injustiças, apesar das criseis, apesar das guerras, apesar dos pesares. Para isso, basta que façamos bem o que nos compete fazer. UM GRANDE ABRAÇO.
FANTASIA
No vai e vem de minha mão,
Revolvo o baú de minhas fantasias
E nelas encontro as linhas do teu corpo,
Por entre as quais me envolvo e me perco.
No vai e vem de minha mão,
Sinto tremores de meu corpo em brasa
E me abraço à lembrança do teu corpo
No ritmo crescente do coração acelerado.
No vai e vem de minha mão,
Tua imagem já me invade concretamente
E começo a incentivar-te ao gozo.
No vai e vem de minha mão,
Depois de imensa explosão orgástica
Me invade, do ato solitário, a frustração.
(Poema de Francisco Dantas, Instantes Poéticos, 2006, 51)
FELIZ NATAL! UM NOVO ANO FELIZ! TUDO DE BOM PARA TODOS NÓS! SÃO OS MEUS VOTOS AOS AMIGOS BLOGUEIROS, COMPANHEIROS DE JORNADA! (VOTOS DE FRANCISCO DANTAS, 2008-2009)
MEMÓRIAS
As tais memórias?
Pra que memórias?
Não há memórias
Se não se é ninguém.
Não busco mais nada
Que o nada mais absoluto.
Não sou nada mais
Que o mais absoluto nada.
Pra que memórias
Se não as tenho, se não as enxergo,
Nesta enxerga que sou eu.
Minha memória só me permite
Alcançar, do meu passado,
O simples mortal que viveu
Sem saga e sem lembranças
De um passado que não vingou.
Quem sou eu? O que eu sou?
(Poema de Francisco Dantas, 2008)
EU POSSO TUDO NAQUELE QUE ME CONFORTA.
CONFORTO
Em busca da Fé,
Tentei encontrar
Consolo pra angústia
Infinita da alma
A me atormentar.
Senti muitas dores,
Chorei muito pranto,
Perdi todo o encanto
Que tinha por Ti.
Mas do alto da Cruz,
Senti, dos teus olhos,
Bondade de Pai,
Que, olhando seu filho,
Lhe diz em silêncio:
-- Meu filho querido,
Apesar destes cravos,
Recolho meus braços,
E te envolvo num abraço,
Eu velo por ti.
(Poema de Francisco Dantas, 2008)
Carta a um Ex-Professor e a um Sempre Poeta
Professor Dantas,
Sempre soube, desde o primeiro momento, que atrás daquele jeito sisudo de ser na sala de aula havia um homem que tinha seus sentimentos pulsantes, mesmo que em estado de latência. Pude ver isso claramente no último dia de aula, quando você divulgou nossas notas oralmente. Lembro-me bem que lhe disse: “Sabe, Professor, eu pensava que você implicava comigo por não gostar de mim, mas descobri que você me adora.” Em seguida flagrei um sorriso que insistia se esconder em um rosto que parecia não ter alma. Eu sempre soube que você tinha alma!
Sem querer ser ousada, peço licença para apelidar, carinhosa e respeitosamente, Instantes Poéticos de “Desnudamento”.
Mais do que me deleitar com seus versos, que me permitiam fazer leituras visuais e muito próximas, como Graciliano em Vidas Secas nos permite, e chegar ao profundo êxtase afetivo-amoroso que Castro Alves em “Boa Noite” nos conduz, eu senti uma alegria enorme ao ver que nunca estive equivocada. Que você sempre foi mais humano, mais sensível, mais solidário, mais criativo e bem mais humorado.
“Desnudamento” me esquenta a memória, me fazendo lembrar a quebra do clima daquela sala de aula silenciosa do Português VII. Ali, naquela sala silenciosa, me veio o “barulho” de todas as emoções preciosas que você insistia em esconder da gente – da sua turma de nove alunos, de seus ex-alunos, dos transeuntes.
Ao término do curso de Letras, a busca de orientador para tentar o Mestrado e fui ter com você na Reitoria. Jamais me esquecerei como fui bem acolhida.
Já no Departamento, lá em Educação, a procura de livros difíceis de achar e de novo a sua alma ia atrás de muitos que eu pedi, inclusive, O Brinco. Este veio de longe – interior de São Paulo, por meio de uma pessoa de um dos sebos.
Nos últimos tempos, Instantes Poéticos, que permitia sair, agora da alma, aliterações, metáforas – recursos estilísticos não teorizados por Vossler (faz tanto tempo... nem sei se é assim que se escreve), mas tecidos por você, Professor, que já não mais se esquiva em falar ou expressar a essência da qual nós somos feitos – anima.
Sabe, é muito bom saber que eu não estava errada. Que camuflada naquela falta de sorriso, havia uma alma que sorria pela mulher amada, pelo pai amado, pela natureza amada... Mas um comentário estilístico sobre sua poesia me arrisco fazer em um outro momento. Por enquanto, permito-me apenas sentir um poeta romântico que se funde nas águas salgadas e doces, respectivamente, de Álvares de Azevedo e Castro Alves.
Meu abraço envolto de profunda admiração e gratidão, por todas as formas e momentos, em que me ajudou a crescer,
Walkíria Carvalho
Em 09 de 02 de 2007
CHEGA
Chega de dissabores,
Que eu tenho amores
De vários sabores
Para apreciar!
Chega de tristezas,
Que eu tenho valores
Para, de bem com a vida,
Poder gozar!
(Poema de Francisco Dantas, outubro de 2008)
EU QUERIA...
EU QUERIA,
AI COMO EU QUERIA,
MORRER ASSIM,
DE REPENTE,
DEITADO AO TEU LADO,
EM DOCE ABRAÇO,
COM TEMPO SUFICIENTE
APENAS PARA DIZER-TE:
- COMO EU TE AMO!
MINHAS AMIGAS,MEUS AMIGOS peço-lhes desculpas por não não responder, individualmente, aos seus comentários. Quero dizer-lhes que estou bem, recuperando-me de minha cirurgia. Muito obrigado pelos comentários, e-mails, pensamentos positivos, de torcida para o bom êxito do meu tratamento. Tudo de bom para vocês. De coração. Franciscol Dantas. Em breve, voltarei a postar, a visitá-los e a interagir e aprender com vocês.
(Poema de Francisco Dantas, 2008)
DEVANEIO
É doce morrer no mar
Uma pinóia!
Doce é morrer
Nos doces abraços
Da mulher amada,
Contemplando o doce verde
Dos seus olhos
E mergulhado nas doces dimensões
Dos mares verdes em que mergulho.
Aí, sim, é doce morrer no mar
Dos mais extensos clímax
E gozos abissais.
Aí, sim, é doce morrer no mar,
Profundo mar do líquido seminal
Que invade as mais recõnditas
Reentrâncias de nossas intimidades.
(Poema de Francisco Dantas, agosto de 2008)
MEU GRITO
(Oração rap)
Essa mulher
Vestida de negro,
A própria tristeza
Recobrindo o mundo
Num esgar doloroso
De quem mais sofreu
As piores torturas,
As piores memórias
De quem já sofreu.
Vítima das armas
De homens malvados
De quem mais sofreu.
Facínoras, bastardos,
Filhos sem pátria,
De quem mais sofreu.
São pestes, são ratos,
De fétidos porões,
De graves sistemas,
De quem mais sofreu.
É isso, irmã; é isso, irmão,
Te dou o meu canto,
Calado no pranto
De quem mais sofreu.
Brasil, por favor,
Devolve-me o sorriso,
Que se abra no riso,
No riso contente,
De adeus
A essa
Dor!
(Poema de Francisco Dantas, 2008)
|
|
||||
|
||||
|
|
||||
|
||||